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Falando sobre Bruxas

Autores diversos

As bruxas paulistas

Publicada a alguns anos na Revista Veja

Documentos mostram como a Igreja saiu à caça de feiticeiras em São Paulo no século XVIII

Por Sandra Boccia

“Seja remetido este sumário por duas vias ao Tribunal do Santo Ofício da cidade de Lisboa na forma do estilo de cuja entrega se pedirá recibo que será remetido a este juízo. São Paulo, 18 de março de 1750.”

Páscoa era uma escrava paulistana que usava pedacinhos de unha, fios de cabelo e excrementos humanos para enfeitiçar e matar. Depois de fazer um pacto com o demônio, ela tornou-se uma espécie de serial killer do século XVIII, matando cinco pessoas. Essa história fantástica consta dos autos da investigação sobre seus crimes, da qual a Justiça Eclesiástica de São Paulo se ocupou durante dez meses.

Finalmente, em 30 de julho de 1750, o juiz assinou a sentença: o caso deveria ser encaminhado à Inquisição, em Portugal. O destino de Páscoa nas mãos do Santo Ofício, que costumava condenar bruxas à morte na fogueira, ainda é um mistério. Processos recém-redescobertos nos arquivos da arquidiocese mostram que entre 1749 e 1771 nove mulheres (Páscoa entre elas) e quatro homens foram acusados de feitiçaria em São Paulo. Salvos de um incêndio e esquecidos por décadas dentro de um baú de metal, esses documentos inéditos revelam episódios sombrios e pouco estudados da História nacional: a caça às bruxas conduzida pela Igreja Católica há mais de 200 anos. “Trata-se de uma descoberta revolucionária”, diz a historiadora Mary Del Priore, professora de história do Brasil colonial na Universidade de São Paulo, USP. “Essa documentação serve para iluminar um território que ainda continua nas sombras.”

Os treze processos por feitiçaria, manuscritos em delicada fibra de pano e carcomidos pelo tempo, mostram como as autoridades eclesiásticas brasileiras seguiam à risca a cartilha da Inquisição portuguesa. Do século XVI ao XVIII, o Tribunal do Santo Ofício puniu com severidade qualquer suspeita de desvio em relação à doutrina católica, incluindo aí a magia. Nunca chegou a se estabelecer na colônia brasileira e seus enviados especiais – os Visitadores – só estiveram nas capitanias prósperas como Bahia, Pernambuco e Grão-Pará.

Em São Paulo, na época um pobre aglomerado de sessenta ruas contornadas pelo Rio Tamanduateí e seu afluente, o Anhangabaú, a caça às bruxas ficou por conta do clero local. Num processo aberto em 1767, Isabel Pedrosa de Alvarenga, moradora de Santo Amaro, foi acusada por um dos espiões da Igreja (chamados de “familiares do Santo Ofício”) de dispor de um saco de coisas abomináveis para exercer atividades diabólicas. Umbigos de crianças, bicos de pássaros, cabelos e panos ensopados em sangue eram o tesouro desta mulher que vivia de esmolas e jamais admitiu ser uma bruxa. As acusadas eram normalmente pobres coitadas como Isabel, mais preocupadas com o sustento do dia-a-dia do que em prejudicar alguém. Eram parteiras, lavadeiras de mortos, benzedeiras, curandeiras e adivinhas – típicas profissões femininas da época. “O próprio saber feminino era visto como bruxaria”, diz a historiadora Eliana Rea Goldschmidt, do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina da Universidade de São Paulo. A primeira leitura dos documentos – de difícil compreensão devido ao português arcaico e à deterioração do papel – foi feita pela historiadora a pedido de VEJA.

As regras do Arcebispado da Bahia, editadas em 1707 numa tentativa pioneira de adequar as diretrizes católicas à colônia tropical, puniam os praticantes de magia com multas, excomunhão e degredo na África. A definição de magia era vaga e podia incluir qualquer acontecimento incomum. Em 1749, por exemplo, a Cúria paulista enviou a Portugal os autos de acusação contra Patrício Bicudo da Silva, colono de Santana de Parnaíba. O que tinha sido apurado contra ele era a estranheza de “trazer consigo cobras vivas nas mãos sem receber lesão alguma”. Num processo arquivado na Cúria, de 1771, Leonor de Siqueira e Moraes e sua filha, Ana Francisca, foram acusadas de usar “líquido menstrual” para transformar Manoel José Barreto, marido de Ana, num “pateta”.

O exílio no Brasil foi pena comum imposta às feiticeiras portuguesas. Isso encheu a colônia de benzedeiras e milagreiras. Apesar da quantidade de autos-de-fé em Lisboa, as cerimônias em que se queimavam hereges, a caça às bruxas foi mais branda em Portugal do que em outros países europeus, como a Alemanha. Todo o continente vivia assombrado por bruxarias. No auge da caça às bruxas, entre 1450 e 1700, estima-se que 20.000 pessoas foram queimadas vivas. A conclusão dos processos encontrados no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo pode estar nas montanhas de papel armazenadas na Torre do Tombo, que guarda os documentos coloniais em Lisboa. Ou em lugar nenhum. Se Páscoa ou outras bruxas paulistas arderam nas fogueiras é, por enquanto, uma pergunta sem resposta.

As Bruxas do Século XX

Mulheres

Texto de Rose Marie Muraro no livro “O martelo das feiticeiras”

Agora, mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milênio, o que nos apresenta como avaliação da sociedade industrial? Dois terços da humanidade passam fome para o terço restante superalimentar-se; além disso há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca do que o mais louco dos inquisidores. Ainda neste final de século outro fenômeno está acontecendo: na mesma jovem rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão.

A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina. Assim, hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história de patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva. Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!”

As Bruxas

Texto extraído do livro “Revelações de uma Bruxa” de Márcia Frazão.

“Uma bruxa é o fruto do amor entre a Terra e a Lua”

Margaret Andreas

Descobrimo-nos bruxas quando conseguimos nos perceber enquanto mulher. De nada adianta querer ser feiticeira se não se conhece o segredo do feminino! É necessário primeiro o reconhecimento da fêmea que trazemos dentro de nós, essa parceira desconhecida que nos acompanha desde o nosso nascimento. Uma parceira silenciosa, que aponta a cada instante o caminho da sensibilidade. Costumamos, entretanto, estar tão ocupadas com nosso universo cotidiano, que nem ouvimos sua voz doce e suave.

Para nos descobrirmos mulheres é preciso aguçar os sentidos e, assim poder vivenciar plenamente as experiências. Isso poderá, a princípio, parecer complicado, mas, iniciando com pequenas tentativas, constataremos estar cada dia mais perceptivas. Experimente, ao tomar banho, explorar seu corpo suavemente. Sinta cada dobra de pele, cada osso, do mais saliente ao mais escondido. Deixe que a água percorra seu corpo. Não tenha medo de sentir prazer e, ao sair do banheiro, você experimentará extraordinária leveza interior.

Quando começamos a nos descobrir mulheres, um novo mundo se descortina à nossa volta. Ficamos muito mais susceptíveis e, por consequência, muito mais completas. Claro que essa sensibilidade trará, inicialmente, alguns contratempos com o universo masculino, pois seremos, então, donas absolutas do nosso prazer, o que é um tanto complicado de ser entendido pelos homens. Mas será exatamente essa posse do prazer que nos permitirá ajudar nossos parceiros na captura de sua sensibilidade própria.

O universo feminino foi por séculos sufocado por uma sociedade fálica, onde predominou a linguagem do poder. Nesse discurso, não encontramos em momento algum a doçura da transcendência. Tudo fica estabelecido num sistema quadrado, composto por retas e inibidor de curvas. Voltas sinuosas que nos indicam sempre o caminho da profundidade. A própria púbis é traçada por dois montículos que, delicadamente, se vão estreitando até a espiral da vagina.

Nesse mundo de retas, sempre voltadas para fora qual grandes lanças, a espiral feminina ficou espremida, sufocada a tal ponto, que se cobriu de uma casca espessa que não deixa a mulher se perceber. Ao próprio homem, esse pensamento retilíneo trouxe tal rigidez, que o afastou melancolicamente de sua parceira, deixando-o irremediavelmente solitário e, por sua vez, também oprimido. Cabe a nós, mulheres restituir as curvas para melhor conviver com nossos parceiros. Só assim poderemos dançar juntos pelos campos onde outrora celebrávamos, também em parceria, a colheita. E você experimentará o maravilhoso de, sentando-se na grama sentir o pulsar alegre que ela emana, o sublime ato de, ao tocar suavemente as asas de uma borboleta, perceber nos dedos o seu cumprimento delicado. Restabelecida essa ligação, veremos que somos parte de um maravilhoso sistema encantado e não mais sentiremos medos e angústias, pois estaremos pulsando num mesmo compasso.

O grande erro do ser humano foi acreditar-se o único ser inteligente em meio à natureza, tornando-se, assim, um espécime solitário e infeliz. Quando digo ser humano, estou me referindo à civilização dita humanizada, pois não encontraremos essa infelicidade nos ditos primitivos. Esses povos possuem a profunda sabedoria da natureza, sendo, por isso, incrivelmente felizes! Uma bruxa poderia ser considerada, pelo homem civilizado, alguém essencialmente primitivo, alguém que não presta atenção ao serviço de meteorologia, uma vez que é profunda conhecedora dos movimentos do tempo.

Obs.: Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a Wicca não é exclusividade apenas de mulheres, o homem é muito bem recebido pela Grande Deusa, basta saber escutar o teu chamado.

A Bruxa Eclética

Anamaya

Todo recém-chegado à Arte muitas vezes apropria-se daquela etiqueta porque parece significar que eles podem acreditar e fazer tudo que eles querem, sem ter que aderir a qualquer crença particular ou sistema ritualístico. Isso simplesmente não é o caso. Dizer que algo é eclético significa que está composto de elementos advindos de várias fontes. Porém, deve haver fontes para tal ecletismo na Arte. Não significa que você pode compor seu próprio modo de fazer tudo, seu próprio modo de pensamento, e ainda chamar a isto de a Arte. Não significa que você possa incorporar toda ideia da Nova Era, embora atraente possa parecer ao indivíduo, e então reivindicar que o que você faz é a Arte. Uma bruxa eclética escolhe cuidadosamente um caminho que possui elementos de tradições de bruxaria diferentes, tendo a certeza que não há nenhuma contradição ou conflitos entre os elementos escolhidos, e que cada um é bem compreendido. Existem alguns limites.

O caminho não pode ser completamente idiossincrático, mas claro ao pagão. Alguns argumentarão contra isto, mas em minha opinião, é impossível ser simultaneamente cristão e uma bruxa sem sacrificar componentes importantes de um ou o outro. Conflitos entre os dois sistemas de crença são imediatamente aparentes, e alguns são impossíveis solucionar. Bruxas de qualquer tradição não são monoteístas e nem seguem qualquer escritura revelada (Torah, Evangelhos, Quran, Livro de mórmon, etc.). Há muitos outros elementos contraditórios, mas isso deve ser apartado para outro ensaio. É importante registrar novamente que nem a Wicca e nem a Bruxaria Tradicional é tradicional no sentido de aderir estritamente às crenças e práticas de nossos antepassados. Semelhante a isto ou não, este é o neo-paganismo, porque simplesmente não temos nenhuma escolha. É provável que a religião dos pagãos europeus originais fosse bastante diferente, mas chegamos ao ponto onde precisamos olhar as tradições que são praticadas hoje em dia, no lugar dos “modos antigos”, entretanto com referências ao passado tanto quanto possível.

A Bruxa Solitária

Anônimo

Reflita bastante antes de virar uma bruxa solitária, pois isso implica em trabalhar sozinha, ou com um parceiro. Ser solitária permite optar por qualquer coisa, desde a escolha de uma tradição ou a falta de uma. O poder de decisão cabe somente a ela quanto ao ritual, vestimenta, instrumentos, etc. As invocações e spells (feitiços) é feito exclusivamente por ela em um ritual, o que as torna ecléticas por natureza.

Praticar bruxaria solitária é um pouco triste, exatamente pelo nome, que dá uma idéia: sozinha. Não há com quem compartilhar seus conhecimentos, ou mesmo uma ajuda para se fazer um ritual. Você trabalha sozinha, por si própria e desempenha todos os papéis de um coven completo. Mas nada a impede de mais tarde, fazer parte de um Coven ou mesmo, criar um coven, o que é muito interessante.