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Acreditar

Marcelo Sette Câmara

A algum tempo, por volta de 2004, quando eu participava do grupo Irmandade de Hécate do Yahoogrupos, uma de suas participantes que utilizava o nome de Bruxa dos Gatos (Sibele) postou o seguinte texto:

“Gente, acabou de passar uma coisa pela minha cabeça que acho que explica 100% nossa vida de bruxa, nossa religião. Me ocorreu que na nossa religião a gente não ACREDITA nela, não rola esse negócio de fé. Percebi que a gente SENTE a nossa religião. As coisas místicas da magia, comigo, acontecem na minha carne, no meu corpo, e não no meu cérebro, espírito, etc. Tipo assim, eu posso estar encarcerada num cubículo, mas se a lua estiver cheia eu fico agitada, minhas vísceras ficam pulando na cavidade abdominal. É como se a Mãe me chamasse, e eu SINTO isso. Não é o contrário, do tipo “ah, vi que a lua está cheia, e como sou bruxa, hoje devo fazer um ritual em honra dos deuses em que acredito”.

Ontem eu fui à praia no final da tarde. O mar estava bravo, e o estouro das ondas me causa verdadeiro pânico (quase morri afogada em Copacabana uma vez). Mas quando sento na areia e fico cuidando o Luigi, sinto como se estivesse em casa, ou na casa da minha falecida avó (casa da vó é o melhor lugar do mundo), fico com o sentimento de “estou em casa”. E sinto isso sempre que estou em contato direto com a natureza. E quando tem alguma coisa pra acontecer??? Gente, eu posso estar na maior paz do mundo, sossegada, que quando vai acontecer algo de ruim ou de importante, parece que surge um cachorro louco na minha barriga, e eu fico irritada, nervosa, ansiosa, preocupada, e sem nenhum motivo racional. Não demora muito, pimba! Lá vem notícia ruim, ou algo de muito peso acontecendo na vida de quem eu amo. Era isso 🙂 O que vocês acham? Por favor, respondam, porque acho q daí podemos tirar uma informação muito importante sobre nossa religião.”

A resposta que enviei foi a seguinte:

Permitam-me discordar em um ponto sobre o assunto. Você disse: “Me ocorreu que na nossa religião a gente não acredita nela, não rola esse negócio de fé. Percebi que a gente sente a nossa religião. As coisas místicas da magia, comigo, acontecem na minha carne, no meu corpo, e não no meu cérebro, espírito, etc.”.

Em meu ponto de vista, o acreditar está dentro de mim (já que só posso falar por mim mesmo). O que diferencia o caminho por mim escolhido daqueles que possuem uma crença diferente, é que eu me sinto mais completo. Eu acredito no que faço e sinto seus reflexos no todo de minha vida. Para mim a Magia acontece em meu corpo físico, em meu cérebro, em meu espírito, ou seja, em mim de forma completa. Quando a Magia age, ela age no todo e não só em parte. A energia que a Magia move faz mover o próprio Universo, seja exterior, seja interior.

Quando estou me integrando com a própria Natureza, seja em uma praia, uma montanha, ou uma praça da cidade, e sinto dentro de mim a paz que ela me traz, sinto meu próprio espírito tranquilo, o que reflete em meu corpo físico. Veja bem, ao fazer um Ritual, qualquer que seja seu objetivo, você, no fundo, acredita no que faz, senão ele não funcionaria a contento, ou não teria um sentido real. Diferente de, por exemplo, uma missa católica, onde o padre chega na frente dos fiéis e fala um monte de coisa que a maioria não entende, e terminando a missa o padre já esqueceu 90% do que ele mesmo disse, simplesmente porque ele falou ‘para fora’, ou seja, falou o que sua igreja disse para falar. Ele não sente a verdade de suas próprias palavras. Já o que acontece ao se fazer um Ritual onde a Magia está presente, pelo menos no meu caso (e acredito que no da maioria), sinto todo o poder da própria Magia correndo através de meu corpo e chegando em meus centros energéticos (Chakras), que estão ligados a meu Akasha (Éter, Espírito, ou o que seja).

Ao sentir a Magia agindo de forma completa em meu ser, não há como não acreditar que ela seja real. Olhe a palavra de uma forma diferente daquela inserida em seu texto. Ela possui um sentido bem mais amplo do que aquele que as igrejas, de uma forma geral, passam, pois elas (as igrejas) monopolizaram essa palavra, tirando seu contexto real e amplo. Segundo o dicionário:

  1. f.
  2. Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro.
  3. Testemunho autêntico dado por oficial de justiça.
  4. Fidelidade.
  5. Prova.
  6. Crença.
  7. m.
  8. Décima sétima letra do alfabeto hebraico.
  9. Relig. Uma das virtudes teologais.

À fé: por certo, certamente.

Vê como seu sentido é bem amplo? Pegue o item “1. Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro.”. Não é o que você faz ao realizar um Ato Mágico, um Ritual, ou simplesmente estando em comunhão com a Natureza? Em momento algum o dicionário mencionou qualquer igreja ou religião. Vou te contar uma pequena história, que aconteceu comigo.

Moro em São Paulo. A rua que dá acesso à minha casa é também conhecida como Rua dos Evangélicos, porque tem igrejas evangélicas, livrarias, lojas mini shoppings, todos evangélicos. Na rua, em frente a uma igreja, vez ou outra o pastor fica fazendo seus sermões e parando as pessoas na rua. Um dia ele me parou e começou sua ladainha sobre sua religião. Educadamente (dentro do possível) interrompi e disse o seguinte (literalmente):

– Pastor, sem querer ser rude, mas de acordo com os evangélicos, se eu não for um estarei (desculpe a palavra) ferrado. De acordo com os católicos, se eu não for católico estarei ferrado. E é assim com todas as religiões que eu conheço, que, se não fizer parte delas estarei ferrado. Então, como já estou ferrado mesmo, pelo menos acredito em algo que, para mim, faz mais sentido do que todas elas juntas: a Magia.

Bem. Pode imaginar a cara do pastor depois que disse isso. Mas uma coisa boa aconteceu. Passo pela rua e ninguém me perturba mais. Contei essa historinha só para demonstrar que o acreditar naquilo que faz nos leva a fazer as coisas de forma completa, de forma mais consciente (mesmo sem serem racionais). Outras pessoas ao me verem conversando com uma árvore no parque, por exemplo, me consideram maluco e irracional por estar conversando com uma árvore. Só que eu acredito que a árvore me responde (porque ela responde realmente), não de forma racional, mas na forma de uma energia que me recarrega. Aí entra novamente o acreditar e o sentir de forma completa. Bem, acho que já está muito grande o texto, e peço desculpas por isso.

BB