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Lendas

A Lenda da Mulher Búfalo Branco

Um dia, dois jovens guerreiros Sioux estavam caçando nas pradarias do Minesota. Ao subirem uma colina em busca de caça, eles foram surpreendidos ao verem uma jovem mulher, muito bonita, surgir diante deles numa nuvem. Retendo o fôlego, eles a observavam. Ela trajava vestes feitas de corça branca. Levava a tiracolo uma sacola de pele e uma pele de búfalo em uma das mãos. Uma pena de águia, trançada nos seus longos cabelos negros, reluzia à luz do sol.

– Não tema, disse a mulher, eu trago paz e felicidade para vocês. Agora me falem, por que vocês estão longe de sua aldeia?

A graça a beleza dela, incendiou o guerreiro mais velho com pensamentos lascivos, que calou-se. O mais jovem, então respondeu:

– Nossa aldeia está com falta de comida. Nós estamos caçando.

– Aqui, ela disse, leve de volta este pacote aos seus. Diga para os Chefes das sete fogueiras da sua tribo, para reunirem-se na fogueira do conselho e esperarem por mim.

Ao escutar essas palavras, o mais velho deu voz ao seu desejo de acasalar-se com ela, ali mesmo na pradaria, debaixo do sol. No momento em que o guerreiro mais velho tentou agarrá-la, a mulher envolveu-o na pele de búfalo. Uma nuvem envolveu o corpo dele, e quando o pó assentou, no lugar do guerreiro havia um esqueleto recoberto de vermes. Foi então que Mulher Búfalo Branco, falou ao jovem guerreiro:

– O homem que olha primeiro a beleza exterior de uma mulher, nunca conhecerá sua beleza divina, pois ele é um cego. Mas o homem que primeiro vê a beleza de seu espírito e sua verdade, esse homem conhecerá o Grande Espírito nessa mulher; se ela quiser deitar-se com ele, ele compartilhará com ela um prazer mais pleno do que poderia imaginar. Você, quando me olhou, não ficou cego com a minha beleza, mas seu primeiro pensamento foi: ‘Quem é essa mulher?’ ‘De onde ela vem?’ ‘Será ela uma mulher sagrada?’. Meu jovem, você também terá o que deseja. Você e seu amigo simbolizam dois caminhos que os homens podem seguir. Se procurar primeiro a sagrada visão do Grande Espírito, estará vendo da mesma maneira que o Criador, e por isso você saberá que aquilo que necessitar da terra chegará às suas mãos. Mas se preferir seguir primeiro, esquecer o Grande Espírito, satisfazer os seus desejos terrenos, você morrerá por dentro.

Foi então que o jovem guerreiro resolveu perguntar quem era ela. Ela olhou profundamente nos olhos dele e respondeu:

– Eu sou o Espírito da Verdade. Seu povo me conhece como a Mãe dos Mais Velhos; mas como você pode ver, não sou tão velha assim. Sou a Grande Mãe, que vive dentro de cada Mãe, a moça que brinca em cada criança. Sou a face do Grande Espírito, que seu povo esqueceu. Vim para falar para as nações da planície. Vá para sua aldeia e prepare a minha chegada. Tenho algumas coisas a ensinar, coisas sagradas que sua tribo esqueceu.

O jovem então correu ao seu povo, para transmitir a mensagem da Mulher Búfalo Branco aos Chefes das Sete Fogueiras de sua tribo. Após ouvirem o jovem, toda tribo começou a trabalhar numa enorme cabana, coberta de muitas peles, na qual toda tribo pudesse se reunir. Quando viram a Mulher Búfalo Branco se aproximando pela pradaria, ficaram atônitos. Esperavam por alguém de mais idade. E ela parecia uma donzela, graciosa como a relva que se movia em torno dela no crepúsculo. Seu rosto brilhava como uma luz que falava das flores e das mais finas ervas. Descalça, como sempre andava nas sua viagens pela terra, ela entrou na grande cabana. Seu vestido de pele de Búfalo Branco irradiava a presença de seu espírito. Sem dizer um palavra, andou em círculo em torno do fogo que ardia no centro da cabana. Cada vez que seu delicados pés tocavam a areia ao redor do fogo, os que a observavam sentiam que cada gesto seu era uma prece de profunda reverência à terra. Devagar, em silêncio, ela contornou o fogo sete vezes. Quando por fim ela falou, sua voz era como a canção dos pássaros das pradarias.

– Sete vezes, andei em sete círculos em torno deste fogo, em reverência e silêncio. O fogo simboliza o amor que arde para sempre no coração do Grande Espírito. É o fogo que aquece cada criatura no mundo. Vocês são como um ser único. Esta cabana, feita de muitas peles, é o corpo de vocês. O fogo que arde no centro dela é o amor de vocês.

Parou um momento e, devagar, curvou-se para tirar um graveto incandescente das chamas.

– Este fogo é mais forte que qualquer um de vocês. Seu povo esqueceu, o que é mais precioso que a água. Vocês esqueceram suas ligações com o Grande Espírito. Eu vim, disse ela erguendo o graveto, como um fogo do céu para reavivar a memória daquilo que foi, e fortalecê-los para os tempos que virão.

Pousou novamente o graveto no fogo e pegou uma sacola de pele que trazia.

– Nesta sacola, trago um cachimbo para ajudá-los a recordarem os ensinamentos que eu trago. Tratem-no sempre com respeito. Levem-no sempre em sacolas das mais finas peles, enfeitadas pela mãos mais reverentes. Ponham neste cachimbo um tabaco sagrado plantado especialmente para esse fim. Fumem-no com um sentimento de gratidão ao Grande Espírito, de cujo sopro vocês receberam a vida. Usem o fumo para representar seus pensamentos, suas orações e aspirações ao Grande Espírito.

Até então ela ainda não tinha aberto a sacola na qual estava o cachimbo. Desatou as tiras de couro que a amarrava, e retirou o cachimbo com tal reverência que todos que estavam na cabana, sentiram o coração transbordando e os olhos cheios de lágrimas.

– Este cachimbo é sagrado, e cada tragada de fumo sagrado que vocês inalam pelo seu tubo, ajudará vocês a recordarem que cada sopro de vocês é sagrado. O fornilho do cachimbo é feito de pedra vermelha. Tem o formato de círculo. Simboliza a Roda Sagrada, o sagrado círculo da vida, o dar e receber, da inalação e da exalação, pelo qual todas as coisas vivas ingressam na vida pelo poder do Grande Espírito.

Pedindo um pouco de tabaco, Mulher Búfalo Branco colocou-o no fornilho do cachimbo dizendo:

– Este tabaco, simboliza o mundo das plantas, o musgo das pedras, as flores, as ervas, as folhas das relvas que cobre a colina para que sua mãe não repouse nua ao sol. Vocês estão aqui para cuidar da terra. Suas vidas são acesas pelo mesmo fogo que arde no coração do Grande Espírito.

Assim falando, ela colocou um pequeno graveto no fogo para que ardesse como chama viva.

– Da mesma forma que acendo esse graveto no grande fogo, assim todo ser humano é uma chama que faz parte do fogo eterno do amor do Grande Espírito.

Devagar, ela tirou o graveto em chamas do fogo, e ergueu-o para que todos o pudessem ver.

– Quando vocês viverem em harmonia com o Grande Espírito, sua chama de amor será vivida sempre por aqueles ventos espirituais. Vocês serão tomados de amor pela própria razão da vida! Acenderão o fogo do amor em todos os que encontrarem. Conhecerão o propósito de sua travessia por esse mundo e saberão que o Grande Ser deu uma chama da vida a todos: não para guardarem sua pequenina chama somente para si, amando apenas aquilo que é necessário às suas vidas, mas sim para que pudessem dar o seu amor, e com o fogo desse amor trazer consciência para a terra.

Dizendo isto, ela segurou o graveto bem em cima do fornilho vermelho do cachimbo. Encostou a chama bem no centro do cachimbo, aspirando suavemente pelo tubo até o tabaco incandescer. O cheiro do fumo invadiu o ambiente.

– Assim como o tabaco queima neste cachimbo de terra que representa as plantas, continuou Mulher Búfalo Branco, assim também esse búfalo que vocês vêem entalhados no fornilho de pedra do cachimbo representa as criaturas quadrúpedes que compartilham com vocês esse mundo sagrado. As doze penas que pendem o tubo do cachimbo representam os seres alados com os quais vocês compartilham o grande círculo do céu.

Em seguida ela passou o cachimbo ao chefe do conselho dizendo:

– Tomem este cachimbo. Agradeçam ao Grande Espírito, e passem o cachimbo aos outros do nosso círculo. Que seus pensamentos sejam elevados ao Grande Espírito que vem agora mexer com suas memórias, abrindo os olhos de seus narradores. Cada amanhecer que nasce vermelho no céu do leste, como o fornilho vermelho deste cachimbo, é o nascimento de um novo dia, de um dia sagrado. Lembrem-se sempre de tratar cada criatura como um ser sagrado: as pessoas que vivem além das montanhas, os pássaros, os peixes e os outros animais, todos eles são irmãs e irmãos de vocês. Todos constituem parte sagradas do corpo do Grande Espírito. Tudo é Sagrado.

Neste momento, o cachimbo começa a ser passado de mão em mão. Depois que todos que estavam na cabana deram uma baforada, Mulher Búfalo Branco levantou com reverência o cachimbo para que todos vissem.

– Levem sempre o cachimbo com vocês. Trate-o como um objeto sagrado. Honrem todas as criaturas e vivam suas vidas em harmonia com o Caminho Sagrado do Equilíbrio de que fala cada árvore, cada flor e cada novo dia. Haverá muitas estações nas quais o coração de vocês se sentirá claro e puro como uma nascente nas montanhas, e vocês conhecerão a paz e a alegria do Grande Espírito. Mas, se vocês sentirem que se afastaram da trilha do Caminho Sagrado, se seus corações passarem a pesar dentro de vocês, não percam tempo em arrependimento. Ensinar-lhe-eis uma cerimônia, disse ela acendendo o cachimbo mais uma vez no fogo sagrado, uma cerimônia que cada um de vocês pode fazer em companhia de outros, a sós em suas tendas, ou lá fora, na pradaria.”

Ela deu uma pequena baforada no cachimbo e disse:

– Parem suas atividades. Procurem uma pedra sobre a qual sentar. Rogando orientação do Grande Espírito. Acendam o cachimbo e deixem que o fornilho vermelho lhes lembre a sagrada escritura, o caminho da vida, o trilho vermelho do sol. Depois de ter aspirado seu fumo em honra do Grande Espírito, em honra da Mãe Terra, em honra dos animais e das pessoas que são fiéis à realidade, depois de ter dado graças as quatro direções, então aspirem uma vez mais para pedirem orientação aos grandes seres alados do mundo dos espíritos. Peça-os para ajudá-los a ver o melhor procedimento a seguir. Peçam para que eles ajudem a vocês fazerem a escolha mais sábia e a reconhecer os passos que devem tomar na trilha que seu EU mais profundo escolher para vocês. Isso permitirá que o fogo que arde dentro de vocês fale em termos claros, sem interrupções. Peça que os seres espirituais que os cercam, entrem em sua vida. Diga-lhes que desejam ajudá-los e ao Grande Espírito no seu trabalho, e perguntem-lhes como fazer isto. Ao ajudarem o Grande Espírito, vocês se ajudarão. Os seres humanos não são inteiramente felizes nem saudáveis senão quando servem aos propósitos para os quais o Grande Espírito os criou.

Novamente ela entregou o cachimbo, para que fosse passado de mão em mão. Durante muito tempo, Mulher Búfalo Branco permaneceu em silêncio, mesmo após ser completado o círculo de baforada no cachimbo. Quando falou novamente, comparou seus ensinamentos a uma árvore; uma árvore que iria florescer à medida que tomavam a si essas coisas, plantando-as no coração de cada um e aplicando-as no dia a dia.

– Durante longo tempo, ela continuou, vocês viverão sob a sombra sagrada da Árvore da Compreensão que estou plantando nas suas consciências. E, nas gerações vindouras, seu povo estará unido novamente no Sagrado Círculo da Vida. Infelizmente, essa árvore será derrubada depois de algumas gerações. A árvore parecerá morrer. A Roda Sagrada murchará até ser esquecida. Alguns poucos manterão a luz da verdade ardendo nos seus corações, mas a luz será fraca e, mesmo neles, passará a ser uma brasa pequena e imperceptível.

Guardando o cachimbo na sacola, ela continuou:

– Mas a brasinha permanecerá. Em silêncio, continuará. Mesmo quando vocês tiverem sua terras invadidas, vendidas e roubadas. Essa brasa ainda manterá sua luz acesa, e saibam, meu povo: um grande fogo pode sair de uma única brasa! Quando a tempestade passar, essa brasa acenderá um alvorecer mais forte do que qualquer outra alvorada. Uma nova árvore crescerá, mais gloriosa do que esta que agora deixo com vocês. Com o novo alvorecer, eu voltarei e viverei com vocês. Debaixo da sombra dessa árvore, estarão reunidos não somente as tribos vermelhas, mas as tribos brancas, as tribos negras e as tribos amarelas, vindo de todas as direções. Em harmonia, as quatro raças viverão sob os ramos da nova árvore. Tudo que foi quebrado será refeito por inteiro. A Roda Sagrada será consertada. A comida será farta e os espíritos de todas as criaturas alegrar-se-ão na harmonia de uma nova ordem, perfeita. O Grande Espírito, estará atuando dentro das raças, vivendo, respirando, criando através dos povos da terra. A paz virá as nações.

Despediu-se dizendo que voltaria um dia, então transformou-se num Búfalo Branco, e sumiu envolta nas nuvens e nunca mais foi vista.

“Grandes mudanças estão a caminho com o nascimento do Búfalo Branco.”

Com o nascimento de um Búfalo Branco, em 1994, em Janesville, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos. torna-se mais próximo o cumprimento da profecia sagrada de que irá surgir uma nova idade de unificação e espiritualidade global, enchendo-nos de uma esperança maior para o novo milênio.

Da’Naho! (Assim seja)

Como foi dado o Milho aos Índios

Um jovem de catorze ou quinze anos morava com os seus pais, irmãos e irmãs numa pequena e muito bem situada tenda. A família, embora pobre, era muito feliz em bem disposta. O pai era um caçador  a quem não faltava coragem e habilidade, mas havia alturas em que mal conseguia sustentar a família. Visto seus filhos nenhum ter idade suficiente para o ajudar, por vezes as coisas tornavam-se difíceis. O rapaz era uma criança feliz e bem disposta, tal como o seu pai, sendo o seu maior desejo o de ajudar o seu povo. Tinha chegado a altura de abstinência, obrigatória para todos os rapazes índios da sua idade. A sua mãe construiu-lhe uma tenda, preparada para tal, num local remoto, onde ninguém o pudesse incomodar durante a sua provação. Lá, o rapaz meditou sobre a bondade do Grande Espírito que tornou as florestas e os campos bonitos para o prazer do homem. O desejo de ajudar os outros estava nele fortemente implantado e rezou para que lhe fosse revelado, em sonho, a maneira de o fazer. Ao terceiro dia de jejum, quando estava já demasiado fraco para poder passear pela floresta e, deitado, se sentia entre o sono e a vigília, um belo jovem veio até ele, ricamente vestidos com mantos verdes e bonitas plumas da mesma cor na cabeça.

– O Grande Espírito ouviu as tuas preces, disse o rapaz como a voz soou como o vento passando por entre a erva. Escuta-me atentamente e o teu desejo será concretizado. Levanta-te e luta comigo.

O rapaz obedeceu. Embora os seus membros estivessem fracos, o seu cérebro estava lúcido e ativo e ele pensou que não poderia fazer outra coisa senão obedecer aquele estranho de voz suave. Depois de uma longa e silenciosa luta o belo jovem disse:

– Já chega por hoje. Amanhã estarei de volta.

O rapaz estendeu-se no chão, estourado, mas, no dia seguinte, o estranho de verde reapareceu e o conflito foi retomado. À medida que a luta continuava, o jovem sentia-se cada vez mais forte e confiante. Antes de o deixar pela segunda vez, o visitante sobrenatural dirigiu-lhe algumas palavras de elogio e coragem. No terceiro dia, o rapaz, pálido e fraco, foi de novo chamado para combater. Ao agarrar o seu adversário, o próprio contato parecia conferir-lhe nova força, o que o fez com que continuasse a lutar com mais bravura, até que seu companheiro foi forçado a gritar que já bastava. Antes de partir, porém, o belo jovem disse que no dia seguinte poria fim as suas provocações.

– Amanhã o teu pai vai trazer-lhe alimento, o que te ajudará, disse. Á noite, noite voltarei para lutar contigo. Sei que estás destinado a ganhar e a obter o teu desejo. Quando me tiveres derrubado, despe-me dos mantos e das plumas e enterra-me no local onde eu cair, nunca esquecendo de manter a terra que me tapa úmida e limpa. Uma vez por mês certifica-te de que os meus restos mortais são cobertos, são terra nova. E ver-me-ás de novo, vestido com os meus mantos verdes e com as minhas plumas.

Dizendo isto desapareceu. No dia seguinte, o pai do rapaz levou-lhe comida; mas o jovem suplicou-lhe que a comida fosse guardada até a noite. Mais uma vez o estranho apareceu. Embora não tivesse comido nada, a força do herói, como antes, parecia aumentar à medida que a luta ia se desenrolando até que, por fim, derrubou o seu adversário. Depois, despiu-o dos seu mantos e plumas e enterrou-o, não sem sentir pena de ter matado um tão belo jovem. Estando a sua missão cumprida, voltou para junto de seus pais e depressa recuperou toda sua força, nunca esquecendo, porém, a sepultura do seu amigo. Nem uma erva sequer conseguia lá crescer e, finalmente, ele foi recompensado. As plumas verdes começaram a aparecer ao cimo da terra, transformando-se em graciosas folhas. Quando o outono chegou, ele pediu ao pai que o acompanhasse ao local. Por essa altura, a planta já estava no seu auge, alta e bela, com folhas esvoaçantes e bolas douradas. O seu pai ficou surpreso a admirado.

– É o meu amigo, – murmurou o rapaz – o amigo dos meus sonhos.

– É Mon-da-Min,, – disse o seu pai – o grão do espírito, a dádiva do grande espírito.

E foi desta forma que o milho foi concedido aos índios.

Retirado do livro; Mitologia Norte Americana – Lewis Spence

Editorial estampa / Circulo de Editores – Lisboa

Carregador de Nuvens e o Povo Estrela

Um bonito jovem morava com seus pais nas margens do Lago Huron. Sues pais tinham muito orgulho dele e decidiram que ele iria sem um grande guerreiro. Quando teve idade suficiente para arranjar sua Sacola de Medicina, partiu para floresta com esse mesmo objetivo. Enquanto caminhava começou a sentir-se cansado e logo se deitou para descansar. Enquanto dormia ouviu um voz muito doce a segredar:

– Carregador de Nuvens, vim buscar-te. Segue-me.

O jovem pôs-se de pé.

– Estou a sonhar. Isto não é senão uma ilusão.

Disse para si próprio, enquanto olhava estonteado para dona daquela voz tão suave, uma donzela de uma beleza tão incomparável, que os olhos sonolentos de Carregador de Nuvens se turvaram.

– Segue-me.

Repetiu, erguendo-se com tanta beleza do solo como a penugem de um dente-de-leão. O jovem, para sua surpresa, levantou-se ao mesmo tempo que ela, tão leve e facilmente como ela havia feito. Cada vez subiam mais e mais, passando o cume das árvores pelo céu adentro, até que finalmente transpuseram uma fenda na vasta abobada celeste. O Carregador de Nuvens apercebeu-se então que encontrava-se no país do Povo Estrela e de que sua linda guia não era um donzela mortal, mas sim um ser sobrenatural. Tão fascinado estava pela sua doçura e gentileza, que a seguiu até uma grande tenda. Entrou, aceitando o convite da bela Donzela-Estrela e deparou com uma decoração de armas e ornamentos de prata trabalhada com estranhos e grotescos motivos. Durante um tempo, andou às voltas dentro da tenda admirando e elogiando tudo que via, o seu sangue de guerreiro aquecendo à medida que ia deparando com aquelas armas raras. De repente, a donzela gritou:

– Shiu! Vem aí o meu irmão! Esconde-te, depressa!.

O jovem agachou-se num canto e a donzela tapou-o com um pano de rico colorido. Mal ela tinha acabado de o tapar, um sério e respeitado guerreiro entrou na tenda.

– Nemissa, minha querida irmã – disse, depois de uma pausa – , não foste já proibida de falar com terrestres? Talvez penses que conseguiste esconder o jovem, mas não conseguiste.

Depois, desviando a sua atenção da irmã, cada vez mais ruborizada, e dirigindo-se ao Carregador de Nuvens, disse, de um modo benévolo.

– Se ficares aí muito tempo, vais ficar com fome. Anda cá para fora e vamos conversar.

O jovem fez o que lhe era sugerido e o irmão de Nemissa ofereceu-lhe um cachimbo, um arco e flechas. Deu-lhe ainda Nemissa para sua mulher e viveram felizes por muito tempo.

Retirado do livro; Mitologia Norte Americana – Lewis Spence

Editorial estampa / Círculo de Editores – Lisboa

Glooskap

Glooskap e seu irmão Malsum, o Lobo, eram gêmeos. Sua mãe morreu ao dar a luz e, do seu corpo, Glooskap criou o Sol e a Lua, animais, peixes e a raça humana, enquanto o tenebroso Malsum criou montanhas, vales, serpentes e todo gênero de coisas que considerou ser prejudiciais ao homem. Cada um dos dois irmãos possuía um segredo da única coisa que o poderia matar. Malsum interrogou Gooskap sobre como ele poderia ser morto, o irmão mais velho, para testar a sinceridade do irmão mais novo, confessou-lhe que a única maneira de acabar-lhe com a vida seria tocar-lhe com uma pena de coruja. Por sua vez, Malsum confessou a Glooskap que a maneira de o matar seria atingindo-o com a raiz de um feto. O Malicioso Lobo, pegando no seu arco, abateu uma coruja e, enquanto Glooskap dormia, atingiu-o com uma pena que arrancara de sua asa. Gooskap morreu imediatamente, mas para grande humilhação de Malsum, ressuscitou rapidamente.

Malsum decidiu então descobrir o segredo do irmão, e destruí-lo na primeira oportunidade. Depois da primeira tentativa de Malsum, disse-lhe que apenas uma raiz de pinheiro o poderia destruir, e Malsum tentou mais uma vez matar o irmão, desta vez batendo-lhe com a raiz de pinheiro. Mas voltou a falhar. Glooskap levantou-se, rindo, levou Malsum para o meio da floresta e sentou-se ao pé de um riacho murmurando, como se falasse para si próprio:

– A única coisa que poderia me matar seria um caniço em flor.

Desta vez disse isso porque sabia que Quah Beet, o grande castor, estava escondido entre os caniços da margem do riacho e que estava atento a todas as palavras por ele pronunciadas. O castor dirigiu-se imediatamente a Malsum e contou-lhe o que pensava ser segredo de Glooskap. O maldoso Malsum ficou tão contente que prometeu ao castor conceder-lhe o que quisesse. Mas quando o animal lhe pediu asas como as do pombo, Malsum riu com desdém e disse:

– Ah, tu, com uma calda que faz lembrar um espanador, para que precisas de asas?

Com isto, o castor ficou zangado e, dirigindo-se a Glooskap, agora verdadeiramente furioso, desenterrou uma raiz de feto e, correndo para o interior da floresta, procurou o pérfido irmão, que matou, atingindo-o com a planta que, para ele era fatal. Quando Glooskap acabou de criar o mundo, fez os homens e os pequenos seres sobrenaturais, tais como fadas e anões. O homem foi criado do tronco de um freixo, e os duendes, da sua casa. Treinou dois pássaros para que lhe trouxessem notícias do mundo, mas as suas ausências eram tão prolongadas que escolheu dois lobos, um branco e outro preto, para seus ajudantes. Proclamou uma exaustiva e exterminadora guerra aos monstros malignos que então infestavam o mundo e aos feiticeiros e bruxas prejudiciais ao homem.

Ele nivelou as colinas e refreou as forças da natureza em poderosas lutas, nas quais se agigantava, com a sua cabeça e os ombros a erguerem-se acima das nuvens. No entanto, no seu contato com os homens, ele era brando e até cômico, para não dizer ingênuo. Um dia Glooskap foi a procura de Win-pe, um feiticeiro gigante considerado uma das mais terríveis influências malignas à face da Terra. Win-pe empinou-se de maneira a que sua cabeça ficasse acima do pinheiro mais alto da floresta, mas Glooskap, com uma risada digna de um Deus, de maneira a que sua cabeça tocasse nas estrelas e bateu ligeiramente com a parte inferior de seu arco no feiticeiro, que caiu morto a seus pés.

Mas, embora tendo eliminado vários monstros e tendo lutado bastante contra o avanço das forças do mal, Glooskap não achava que a raça humana tivesse melhorado nem ficado mais sábia. De fato, quanto mais ele fazia pelos homens, pior era seu comportamento, até que tendo chegado a um tal ponto de degradação, Glooskap decidiu desistir do mundo. No entanto, por sentir ainda uma certa consideração pelos seres que tinha criado, anunciou que nos sete anos seguintes concederia, a tudo e a todos, qualquer tipo de pedido que pudessem fazer. Muitas pessoas estavam desejosas de beneficiar-se dessa oferta, mas era grande a dificuldade que conseguiam descobrir o paradeiro de Glooskap. Aqueles que encontravam mas que escolheram imprudentemente foram severamente castigados, enquanto aqueles cujos desejos eram razoáveis foram substancialmente recompensados.

Quatro índios que encontraram a moradia de Glooskap acharam-na um mundo mágico, um mundo mais justo do que alguma vez algum homem poderia imaginar. Quando interrogados pelo Deus sobre o que os tinha levado até ali, um dos índios respondeu que o seu coração estava cheio de maldade e que o ódio o tinha tomado seu prisioneiro, mas que seu desejo era o de se tornar humilde e piedoso. O segundo, um homem pobre, desejava ser rico, e o terceiro, de condição mais humilde e desprezado pelos outros membros da tribo, desejava ser estimado e respeitado pelo mundo. O quarto era um homem vaidoso, consciente de sua beleza e cuja a aparência o confirmava plenamente. Embora alto, tinha enfiado peles dentro dos mocassins para parecer ainda mais alto e o seu desejo era ser o mais alto da sua tribo e poder viver durante muitos anos.

Glooskap tirou quatro caixinhas da sua sacola de medicina e deu uma para cada um dos homens, instruindo-os no sentido de só abrirem quando chegassem em casa. Quando os três primeiros homens chegaram as suas tendas, cada um abriu a sua caixa que continha um unguento rico e perfumado com o qual cada um se untou. O homem mal tornou-se humilde e paciente, o homem pobre rapidamente se tornou rico, e o homem desprezado conhecido e respeitado. Mas o homem vaidoso parou a caminho de uma casa numa clareira da floresta e, tirando a sua caixa, untou-se com o unguento que ela continha. Também o seu desejo lhe foi concedido, mas não propriamente da maneira que ele esperava, pois foi se transformando num pinheiro, o pinheiro da sua espécie é a árvore mais alta da floresta.

A despedida de Glooskap Finalmente chegou o dia em que Glooskap deveria deixar a Terra e, para celebrar, deu uma festa nas margens do lago Minas. Todos os animais compareceram e quando a festa se aproximava do fim, Glooskap entrou na sua grande canoa e, lentamente, foi desaparecendo de vista. Mesmo quando já não o podiam ver, continuaram ouvir o seu maravilhoso canto cada vez mais débil na distância, até que morreu por completo. Nessa altura, algo de estranho aconteceu. Os animais que até então apenas falavam um idioma, deixaram de ser capazes de comunicar entre si e, em grande confusão, fugiram para longe para nunca mais se encontrarem em amena conversa, até o dia em que Glooskap voltaria para reavivar os pacíficos dias da idade de ouro.

Retirado do livro; Mitologia Norte Americana – Lewis Spence

Editorial estampa / Círculo de Editores – Lisboa

Como o Búfalo, a Águia, o Coiote e o Urso começaram a ajudar os Espíritos Guardiões

Sun Bear

Há muito tempo atrás, quando os animais podiam falar uns com os outros e com os humanos, os quatro “poderosos animais ” tiveram uma discussão. Cada um deles, sentia ser “o melhor” chefe do Conselho dos Animais. Isso causou mal-estar geral no Conselho, onde o Urso, sempre havia sido o chefe. Ele tinha essa posição, porque era forte e tomava boas decisões com suas irmãs e irmãos. Enquanto muitos animais sentiam que o Urso deveria continuar chefe, outros achavam que deveria haver uma revezamento entre os candidatos. Um dos candidatos era o Búfalo. Disse o Búfalo:

– Eu sou o mais forte e poderoso dos animais, eu me dou generosamente para todos os nossos irmãos e irmãs humanos, bem como para o Reino Animal. Eu mereço ser o chefe, devido a minha pureza de propósitos e habilidade em renovar todos aqueles que recebem os meus presentes.

O outro concorrente era a Águia, e disse:

– Eu voo mais alto do que qualquer uma das criaturas aladas. Vejo mais claramente. Vôo mais perto do Grande Espírito, do que qualquer um deste Conselho. Por causa da minha claridade e sabedoria, desejo ser o chefe do Conselho.

O outro candidato era o Coiote, que disse:

– Eu sou o mais habilidoso (malicioso) de todos os animais. Eu posso sobreviver em qualquer lugar. Tenho a habilidade para ensinar coisas a todos os que queiram ou não aprender. Por trazer o crescimento, eu desejo ser o chefe.

O Urso disse:

– Eu tenho grande respeito por meus irmãos que querem ser chefe, mas vocês não têm motivos para me substituir. Eu os tenho atendido sempre bem. Eu sou forte e ainda tenho sido sempre bondoso em minhas decisões. Sempre penso muito antes de decidir qualquer coisa a respeito de vocês. Desejo continuar servindo-os como sempre tenho feito.

Depois que os quatro poderosos animais terminaram suas falas, todos os outros animais tiveram a chance de falar no “Pau Falante”, passado no círculo. Quando o “Pau Falante” circulou por todos, ficou claro que os animais estavam divididos sobre quem deveria ser o chefe. Não havia consenso. Todos sentiram-se mal, pois era a primeira vez que eles se desagregaram tão fortemente. Eles não sabiam o que fazer. Todos os Quatro Animais eram poderosos e tinham a Medicina que os qualificavam para serem chefes. De repente, os ventos começaram a soprar fortemente em todas as Direções. Os animais tentavam passar algo para o Conselho na segunda rodada do “Pau Falante”, cada um tentava provar que o seu ponto de vista estava certo e o porque escolheram um dos animais como favorito, mas não conseguiam ser ouvidos devido ao forte som dos ventos. Finalmente fez-se o silêncio e quando todos preparavam-se para passar novamente o “Pau Falante” um dos “Espíritos Professores” apareceu no centro. Ele apareceu como um poderoso homem de meia-idade que chegou do Vento Oeste e falou fortemente:

– Eu sou Mudjekeewis, o Espírito Guardião do Oeste. Onde eu ando o Vento Oeste me acompanha. Muito tempo, antes de vocês terem nascido, eu decidi que poderia ser o “Chefe dos Guardiões das Direções”. Como vocês, Águia, Urso, Búfalo e Coiote, nós mantemos as direções fortes. Nós somos crianças da mesma Mãe, e nós todos possuímos a força e sabedoria, específicos de cada um dos pais. Ao invés de brigar sobre quem é mais forte e quebrar a “Lei da unidade” nós decidimos, com ajuda da Nossa Mãe, á nos responsabilizarmos por um quarto da Roda Medicinal. Então, podemos usar nossas forças separadamente da melhor forma possível. Agindo assim, nós tornamos a Roda forte em todas as Direções, e nos tornamos, em conjunto, mais fortes, por termos uma Direção definida para manifestar nossa força. Eu fui escolhido pelo “Grande Um” para intervir neste Conselho dos Animais, e também ouvir vocês falarem. Por ter muitos anos de consenso, vim servir como elo de ligação. Isso porque nesta hora a Lei de Unidade entre os animais poderia ser quebrada se vocês brigassem. E não seria bom para as relações na Terra. O “Grande Espírito” não quer que isso aconteça. Então, cada um de vocês vai fundir o seu poder, com o poder de cada Direção. Desta forma suas forças também vão ajudar a fazer a Roda forte, e cada um terá uma Direção específica a seguir.

  • Urso! Você se fundirá comigo, com o Oeste, porque como eu, você é forte e pensa bastante antes de falar. Comigo sua pele será preta, como a noite com seus cabelos prateados para honrar as estrelas. Você permanecerá como chefe do Conselho Animal, assim como eu sou o chefe do Conselho dos Ventos.
  • Búfalo! Você se fundirá com o poder de Waboose, do Norte, assim compartilhará das qualidades de renovação e pureza. Quando você trabalhar com Waboose, seu pelo será branco, como a cor das neves.
  • Águia! Você se fundirá com o poder de Wabun do Leste. Com sua visão clara, ajudará a trazer consciência, sabedoria e iluminação. Quando você trabalhar com Wabun, você vestirá penas douradas, a cor do raiar do dia.
  • Coiote! Você se fundirá com o poder do Sul, Shawnodese. Com sua habilidade para ensinar e sobreviver, você ajudará a trazer crescimento e confiança aos seres. Quando você trabalhar com Shawnodese, sua pele terá a cor do Sol do meio-dia, que fertiliza a Terra.

Então meus honrados amigos, sejam felizes agora com os presentes de poder do grande espírito, que foi dado a cada um de vocês. Cada um deverá servir da melhor forma, na Direção que está sendo dada, e poderão contribuir para a harmonia da Criação. Isso é bom!

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