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Dedicação para Gaia

© 1997 by Allegra Brillante. 

Um dia, eu acordei tarde e mal tive tempo de tomar banho e me vestir antes de passar correndo pela porta. E, quando parei na varanda, reverenciando o nascer do sol ou vendo o vento correr por entre as árvores, eu senti a presença de Gaia. Ela apareceu para mim grandiosa e sorridente, seus quadris se movendo em um ritmo que uma vez eu conheci, mas há tempos não conseguia ouvir direito. Eu reconheci pela primeira vez em meses a alegria e a beleza que existiam na criação da Senhora. Ela ficou parada na minha frente, os seios tremendo de indignação, e demandou saber:

– Filha, você me ama?

Eu respondi prontamente:

– Mas claro, Mãe! Você é o que cuida do meu sustento e me dá vida.

Então ela me perguntou:

– E se eu houvesse lhe feito imperfeita, sem as pernas ou os braços, ainda assim você me amaria?

Perplexa, eu baixei o olhar, fitando minhas pernas e braços e o resto de meu corpo, o qual, apesar de todos os meus esforços, chegavam a ser quase tão grandiosos quanto os Dela. Pensei em todas as coisas que não poderia fazer sem a ajuda desses membros e pensei novamente neles e na crueldade de receber um corpo mais farto do que o permitido pela sociedade moderna. Eu percebi então que eu sempre subestimei as coisas que eu poderia fazer com esse corpo perfeitamente saudável. E eu respondi:

– Você fez meu corpo imperfeito, e eu sofri entre os já nascidos por causa disso. Ainda assim ele não é tão imperfeito ou dilacerado como outros corpos que já vi por ai. Eu sou grata pelo que me foi dado, Mãe, e eu assim mesmo a amo.

Então Gaia disse:

– E se você fosse cega, ainda assim você amaria minha criação?

Como poderia eu amar algo sem poder enxerga-lo? Então pensei em todas as pessoas cegas no mundo, e um amigo em particular cujas observações sobre as obras de Gaia eram muito mais profundas do que as minhas. Me lembrei de uma época em que a cegueira era considerada um presente dos deuses, e uma marca de seus preferidos. Como todas essas pessoas enxergavam toda a criação sem poder vê-la? E, considerando isso, o véu caiu, descobrindo minha visão interior, e eu entendi que uma pessoa não precisava ver a criação para poder enxergá-la. Então respondi:

– Gaia, quando a visão física é tirada, a visão interior permanece. É essa visão interior que faz com que suas outras crianças conheçam sua Criação. Eu posso fazer isso também; eu sinto as energias ao meu redor. Eu ainda poderia amar suas criações Mãe, mesmo que não pudesse mais vê-las. É a aparência interior que conta, não a exterior.

Gaia sorriu e pareceu como se achasse estar finalmente chegando ao ponto desejado com essa sua criança errante.

– E se fosse surda? Ainda assim poderia me ouvir?

Ah, Ela estava sendo tão complicada hoje! Eu me atrasaria para o escritório se ela prosseguisse por mais tempo. Ainda assim, mesmo contra minha vontade, como uma semente que cai dentro de uma rachadura no concreto, sua pergunta achou seu lugar para germinar em uma mente que eu julgava estéril. Como poderia eu ouvir o som do vento, ou o canto dos pássaros se eu fosse surda? Então eu entendi. Gaia e sua criação não eram uma questão de ouvir com os ouvidos; você também tinha que escutar com o coração. Eu respondi:

– Eu dependo muito de meus ouvidos e não o suficiente em meu coração. Seria muito difícil, mas se eu fosse surda eu teria que deixar meu coração me guiar. Eu acho que ainda poderia escutar você Mãe.

Ela sorriu com satisfação e me fez ainda outra pergunta:

– E se fosse muda? Como você agradeceria a criação e se comunicaria Comigo?

O que? Não cantar no círculo com minhas amigas pagãs? Nenhuma invocação para o Senhor e para a Senhora? Nenhum chamado para os elementos? Como eu poderia me comunicar sem o uso de minha língua? Então me veio o pensamento: canções podem ser cantadas com a alma e com o coração sem nenhum som; essa é a linguagem que Gaia melhor entende. E enaltecê-la nem sempre se dá por canções e sim por ações. Eu humildemente respondi.

– Eu gostaria que minhas ações falassem da maneira que minha língua seria incapaz. Eu, ainda assim, conseguiria me comunicar com você.

E Gaia então perguntou uma última vez:

– Você realmente me ama?

Com a convicção de que eu não havia entendido o propósito desta lição eu respondi com a certeza que me foi possível demonstrar:

– Sim Mãe! Eu a amo porque você me deu estes presentes e me mostrou seus verdadeiros valores.

Gaia então se apoiou em seus quadris, enormes como a criação, e gesticulou pondo as mãos calejadas de seus constantes plantios e colheitas entre os seios.

– Então, porque tens vergonha de mim? Porque não põe em uso os presentes que te dei? Porque não vive cada dia aproveitando a imensidão da criação que eu pus a seus cuidados?

Com as lágrimas brotando de meus olhos eu respondi:

– Os outros não enxergam os valores dos presentes que você me deu. Eles olham somente para meu corpo, e dizem que eu sou um horror ou uma desgraça. 

– E esse corpo é tão mal assim? Ele é forte e livre de defeitos, e poderia realizar grandes feitos se tão somente sua dona se interessasse por fazê-los. Eu te fiz à minha imagem, criança. Se você não se ama, como pode possivelmente me amar?

Não respondi desta vez, não tendo nenhuma resposta que se adequasse a tal pergunta.

– Você é abençoada com a vida. Eu não lhe fiz para que você desperdiçasse este presente. Eu te abençoei com talentos para que você pudesse me servir, mas você continua se esquivando. Eu revelei minha palavra para você, mas seus ouvidos estavam fechados. Eu lhe mostrei minhas bênçãos, mas seus olhos estavam cegos a elas. Eu lhe dei minhas criaturas, para que você cuidasse delas, mas você as ignora. Ainda assim eu ouvi sua voz e respondi suas dúvidas. Você realmente me ama, criança?

Eu não pude responder. Como poderia? Eu estava estarrecida além da compreensão. Gaia havia me mostrado nada além de recompensa e amor e eu havia permitido a opinião de alguns já nascidos aterrá-los com a ignorância. Eu não tinha desculpas. O que poderia eu dizer para Ela, a graciosa Senhora que havia me dado sua própria forma para que eu pudesse me utilizar de tais talentos? Eu gritei então:

Por que você continuou me ouvindo? Por que me ama se eu não posso retribuir esse amor para mim mesma ou para Você? 

Gaia então me abraçou e respondeu:

– Porque você é minha criação, você é minha criança, Eu não poderia nunca te abandonar. Quando você chora eu terei compaixão e chorarei com você. Quando estiver transbordando de alegria eu rirei com você. Quando estiver se sentindo mal e desencorajada eu te animarei. Quando cair eu irei amortecer sua queda. Quando estiver cansada, irei ninar você em meus braços até que você durma. Você é uma criança de Gaia e como tal você amará e será amada.

Ela desapareceu, me deixando com a mente cheia de novos pensamentos e o coração aberto para os caminhos do mundo uma vez mais. Eu comi então uma maçã, pensando em tudo o que se passava dentro de mim e notei o quão maravilhoso o nascer do sol era.

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